sexta-feira, 3 de julho de 2015

Todos somos Maria

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Bethânia em sua carreira transitou, e ainda nos dá a o prazer de continuar essa trajetória, por muitos lugares, “quintais” como a própria chama, muitas vezes imaginários, ou não. Na exposição “Maria de todos nós” o público tem a oportunidade de adentrar por essas terras distantes que se escondem na voz, nos gestos e no ser que é Maria Bethânia. O título da exposição já nos apresenta a pluralidade que se mostra como o ponto chave do pensamento de Bia Lessa, a mesma disse se vê como uma “organizadora”, que teve como função reunir os pensamentos e estabelecer um diálogo entre toda a diversidade de obras e registros que fazem parte do conteúdo expostos.


Por entre os vários ambientes montados no Paço Imperial surgem os sonhos e as poesias que marcam a presença de Bethânia. Vemos brotar florestas atlânticas onde onças nos espreitam, embalados pela voz de D.Maria em Feitio de Oração consagrando a força e a beleza das plantas e a natureza. Encontramos o céu de Santa Amaro, multifacetado como um diamante, que guarda todo o brilho e a beleza da luz que corta as nuvens e abençoa a Nossa Senhora da Purificação, com o som dos sinos e rodeado pela presença das casas e vozes das romarias e do canto de D.Canô que traz o afago e o acalanto da mãe que guarda a vida. A água sempre lembrada e louvada no discurso de Bethânia se faz presente na exposição, em sons, imagens, e até mesmo na materialização de uma molécula de água, em uma instalação que ocupa uma sala inteira do espaço expositivo, que nos confronta com a necessidade real de pensar, tocar e sentir o líquido vital.


As inúmeras obras de vários artistas, que transitam por múltiplos processos artísticos traduzem a representação do próprio trabalho de Maria Bethânia, que com sua habilidade de dialogar com o erudito e o popular, o moderno e o arcaico, a cena e o canto, valorizam e enriquecem todos as formas de arte que o Brasil encerra. Seja na arte popular, nos entalhes de madeira, nas imagens dos orixás que aparecem em pinturas e esculturas ou na videoinstalação onde Bethânia recita o Monólogo de Orfeu, de Vinícius de Moraes, é possível perceber a presença da personalidade critica e inquieta de D.Maria.


Prestigiar a exposição “Maria de todos nós” é sentir-se parte da natureza, do universo, das forças que compõem e enriquecem o canto e o trabalho de Maria Bethânia, muito além da imagem icônica da artista, que na exposição é lindamente apresentada em fotografias impressas em tecido, que encerram toda a leveza da sua presença. Integrar a alma do trabalho dessa prestigiada artista da nossa MPB é estar antes de tudo em contato com a religião, com o divino, com o físico e o espiritual, e é na busca por essa completude que a visita à exposição nos permite estar em amalgama com os cheiros, sons e imagens que permitem entender o que faz Bethânia ser parte de todos nós.

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Texto: Luis Araujo

Fotos: Leonardo Fonseca


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