sexta-feira, 12 de junho de 2015

A Festa no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

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Me perguntam sobre a noite de ontem, de estar presente no Theatro Municipal do Rio de Janeiro para o Prêmio da Música Brasileira em homenagem a Bethânia, antes de tudo dois pontos ficaram claros em mim: 1- a intensa felicidade de Dona Maria era visível; 2- presenciar uma justa homenagem a Grande Dama dos Palcos Musicais de Pindorama, e, aí, que "a coisa me pegou". Um insight e me vi com os olhos embaçados de lágrimas, eu recebi a dádiva de presenciar uma homenagem em vida àquela a quem acompanho desde 1979. Nosso País não é lá muito justo em homenagens, esquece muitos, homenageia uns que jamais deveriam receber nem um olhar mais atento, um País onde o Antigo é considerado Velho e, por este julgamento torto, derrubado, ignorado, substituído por algo "Modernoso" (meio Moderno e muito horroroso), estamos vendo isto neste momento em vários níveis da sociedade de nosso País, da Música a Política, mas ontem, não. Ontem, infelizmente por uma iniciativa particular uma muito mais que merecida homenagem aconteceu. Digo "infelizmente" pq, pasmem, e isto é só um exemplo: Dona Maria NUNCA recebeu a Medalha de Mérito Pedro Ernesto, a principal Comenda que o Rio de Janeiro possui, logo "Ela" que canta e fala deste meu amado balneário falido e decadente com profunda paixão.

Nós que a admiramos, não precisamos de justificativas, mas, possuir um pensamento crítico para justificar o nosso "gostei" e/ou "não gostei" é de no mínimo bom tom, e ontem, a nata da MPB/Teatro do País estava "ali batendo cabeça" para "Ela", ao menos em mim pintou algo do tipo: "Caramba, isto autentica os meus 36 anos acompanhando Bethânia e os quase 9 anos (vários de muitas aporrinhações) urdindo a Re(Verso)." Bobagem? Simplista? Pode ser, não estou aqui defendendo tese acadêmica, estou falando do meu admirar, do meu sentir o qual ontem, ganhou um selo de "Vc não perdeu tempo! Continua no seu bem querer pq "Ela" é a Sra. do palco brasileiro" e isto ficou claríssimo em vários momentos da desastrada premiação.

Poucos momentos altos: Dona Alcioninha tornando-se a Dona da cena, não sei se vcs conseguiram ver na matusquela transmissão, mas, quando de forma decidida Alcione se apodera do púlpito da bela Dira Paes, ela se volta nada discretamente para a apresentadora, entrega o troféu e solta: "Segura aqui, colega" com a cara mais hilária do mundo e o resto é história. Amei Jackson Antunes encarnando o sertanejo/caboclo tão cantado por Guimarães. Nana... esta, mesmo com todas as limitações físicas atuais, é uma das maiores, e, no meio de tanta gente de Teatro falando os textos já ditos por Dona Maria uma certeza se fazia mais forte: Bethânia SABE escolher o que dizer em cena e diz como nenhum outro jamais conseguirá dizer (Vide o maior constrangimento da noite: Elisa Lucinda que, até por ser poeta, deveria ter entendido um dos mais belos textos políticos já escritos em todos os tempos, "Quero ser tambor", de José Craveirinha mas, para mim, o ponto alto dos erros foram os arranjos, como alguém que foi colocado na Direção Musical do Prêmio me coloca um "sambinha" para ilustrar o icônico "Cotidiano", de Antonio Bívar dito desde o espetáculo "Drama - 3º Ato" de forma definitiva por nossa Musa maior? (e, este, é só um mísero exemplo).

Já escrevi muitão, no final das contas tudo se encerrará no "Gostei" e/ou "Não gostei", e é assim que deve ser. Arte antes de qq coisa, aqui peço perdão aos catedráticos/pensadores, tem que servir aos olhos, a alma, para nos trazer paz, alegria, beleza, como a AAAAArte que Maria Bethânia nos oferta desde 1965 e que continuará presenteando-nos até os tempos sem fim.


PS: Não entenderam a foto que escolhi para ilustrar minha resenha? Simples: eu saí de uma noite onde meu Amor por Bethânia foi autenticado em 3 milhões de vias/carimbado/selado, então eu só poderia ilustrar este texto, com uma foto com aqueles que AMO MUITO e que estavam ao meu lado. Ficaram 4 outros fora da foto, os quais não amo menos, perdidos no meio da muvuca dentro do Municipal. Faltaram alguns que não puderam baixar no RJ para tb estar "ali", mas, agradeço a cada um que esteve ao meu lado, em especial àquele que esteve sentado ao meu lado durante toda a festa, pq me faz imensamente FFFeliz, pq são estas criaturas encantadoras que hoje autenticam o meu caminhar. Relevem os erros, escrevi de sopetão e agora tenho que correr para a cozinha, terminar de preparar o jantar pro "meu" povo, quase todos que estão na foto, que estão hospedados aqui em casa e estão chegando de um dia passeando pelo meu amado balneário translumbrantemente lindo.

TEXTO: Eduardo Lott

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À parte essa ou aquela falha técnica, cujo resultado final, em seu conjunto, poderá ser conferido nos vídeos e na transmissão oficial do dia 13, o que resta claro, na verdade, é a importância simbólica dessa homenagem.

Nosso país não tem uma boa relação história/memória, tampouco uma tradição de valorização sistemática de nossa cultura. Homenagens em vida são raríssimas em nossas terras onde impera a comoção seletiva e a indignação influenciada. De modo que a homenagem, bela a sincera, rendida ontem à Maria Bethânia, se não representa uma mudança de paradigma, por ser, antes, um ponto fora da curva, ao menos serve para deixar patente a singularidade daquela que, sem dúvida, é a dona inconteste de nossos palcos. Sua presença e importância, entrando pelos sete buracos das nossas cabeças, ultrapassa nossa apatia.

Particularmente, gostei muito de dois pontos específicos da noite.
Da homenagem ter conseguido amalgamar certo inevitável saudosismo (ela, ao cantar Carcará, recitou os dados da SUDENE, do espetáculo láááá de 65!! Emoticon heart ) àquilo que ela mesmo já deixou claro alhures ser o realmente importante: pensar no agora e no futuro. Tal amálgama se via claramente representado, por exemplo, na assistência, formada por respeitáveis senhores e senhoras de idade (que certamente acompanham a homenageada há muito) e jovens eufóricos com certa "disposição para quebrar o protocolo", como esse mesmo que vos escreve.

Outro ponto alto é que uma característica marcante de Bethânia, qual seja, a de mesclar o "culto" e o "refinado" ao "popular", esteve, mais do que nunca, representada. Me refiro, claro, à participação apoteótica de Alcione, não só arrebatando corações com a interpretação rasgada de "Negue", mas também ao microfone contando "causos" da Abelha Rainha, a quem se refere, intima e divertidamente, como "irmã". Alcione, com sua quebra de protocolo, com sua presença exuberante e divertida e com sua referência ao samba da Mangueira de 2016 cujo enredo se debruçará sobre a vida de Bethânia, desafiou a sisudez do Municipal que, como se sabe, pode inspirar certos arroubos blasés, rs.

Enfim, como já salientou Lott, arte é uma questão de gostar ou não gostar, e o espetáculo em si, certamente imprimirá em cada um de nós sua sensação. Mas o evento em si, em sua intenção, o que reuniu e representou, após todas os apontamentos, após todas as críticas, após todas as apropriações, restará lá em sua importância intacta. Uma bela e grandiosa noite que marca o início de uma longa e merecida homenagem que esperamos que esteja longe de acabar.
São 50 anos, ora pois, e estamos SÓ COMEÇANDO!!
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OBS: sexta-feira tem a homenagem na Feira de São Cristóvão, quem vai?!?!
OBS 2: Elisa Lucinda, eu gosto taaaanto de você...POR QUE FEZ AQUILO?!?!

TEXTO: Matheus Rodrigues Pinto

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Um comentário:

luis claudio de oliveira disse...

Bravíssimos , Eduardo e Matheus! Belos textos. O que se falou sobre o país e essa procura desesperada pelo novo, muitas vezes, apenas por ser novidade foi perfeito. e esse balneário decadente que,há muito, não merece o título de maravilhosa. Os shows de Bethânia deveriam constar do calendário oficial da cidade. Dos quatro baianos ela sempre foi a mais "carioca".
Viva Maria Bethânia!!!