terça-feira, 16 de abril de 2013

"Carta de Amor" , 13 e 14 de abril no Vivo Rio

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Carta de Amor não é, desde seu início, um show que se possa colocar entre os mais célebres de Bethânia. Não obstante as já corriqueiras “auto referências” de d. Maria, não é um show de grandes clássicos, como foi o comemorativo Maricotinha. Não possui a coerência temática de um Dentro do Mar Tem Rio, tampouco o trabalho de pesquisa, a harmonia e o esmero de um Brasileirinho. Logo, de partida, não há o porquê de lamentações como “Não chega aos pés do Imitação Da Vida” que temos lido por aí.Não é a proposta, nunca foi (e qualquer um pode ver isso claramente, desde a escolha dos arranjos, cenário, opções de cena, etc).
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Essa opção por um conceito menos, por assim dizer, marcado (uma concepção de show menos fechada do que foi, por exemplo, as águas do DDMTR) dá ao show certa irregularidade. A lógica que une as músicas nem sempre são óbvias e nem o ritmo nem execução delas se mantém uniforme. Isso não quer dizer que seja propriamente ruim, vejamos: o show tem pontos altos absolutamente notáveis que funcionam por si, sem a necessidade de um entrelaçamento maior com as demais músicas do roteiro, músicas que serão lembradas muito mais que o show em si. Seriam “singles” se essa lógica se aplicasse aqui ou ainda, são aquelas músicas que ultrapassam o trabalho no qual se inserem (como Alteza, no álbum homônimo, pra citar um exemplo). Refiro-me aqui, claro, às execuções nada menos que absurdas de Em Estado de Poesia, Fogueira, Dora, Guacira, Escândalo (!!!!), Na Primeira Manhã e a unanimidade Quem Me Leva Os Meus Fantasmas. Mas divago...
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A apresentação de hoje não foi muito diferente da de ontem, considerando os relatos de quem esteve presente no sábado. Só não vi a animação excessiva da plateia, mas pode ser uma diferença natural entre os dias da semana, imagino.
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Achei Bethânia um pouco irregular, se não na voz, nas interpretações. Meio que demorava para “acertar o tom”, sobretudo no primeiro ato. Ali funcionaram melhor Dona do Raio e do Vento (creio que muito mais pelo apelo emocional da música em si, com o sonoro “Eparrey Oiá!” no final) e, claro, Quem Me Leva Os Meus Fantasmas, onde ela retoma as rédeas da interpretação que começara em Barulho e que foi interrompida pela versão absolutamente dispensável de Fera Ferida. Acho que esse desacerto interpretativo, por assim dizer, ao longo do primeiro ato se deveu à marcação de palco um tanto incerta (repararam o tempão que d. Maria fica no centro do palco imóvel?). Nesse primeiro momento também vale ressaltar o escorregãozinho em Não Enche (dessa vez no ritmo da primeira estrofe, não na letra).
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O segundo ato volta com Bethânia já errando a entrada de Festa. O que, por paradoxal que seja, ajudou muito no clima do show. Ela pede perdão aos músicos (e aqui vale ressaltar a delicadeza notável com que ela vem tratando o Wagner Tiso, mas tergiverso...), explica que esqueceu do ponto eletrônico e pede pra recomeçar. E agora mais relaxadinha!Está pronta pra uma sequência de detonar o público: Festa; Dora (com esse arranjo completamente sensacional ); Lua Branca com uma execução impecável, com uma luz igualmente linda, com a teatralidade que Chiquinha Gonzaga merece; Em Estado de Poesia (uma das, se não a mais, lindas letras dos últimos anos em TODA a MPB), com uma marcação muito bonita de Bethânia próxima ao piano, com um entrosamento lindo com o maestro e com uma iluminação digna de um Velasquez, rs; Adeus Guacira, um dos meus momentos preferidos do show, onde Bethânia ocupa mais eficazmente o palco e onde a singeleza da música casa com o solo magnífico do maestro e com as “estrelinhas cadentes” que, não neguem!!, arrancam suspiros dos mais suscetíveis; A Nossa Casa, onde Bethânia apresenta os músicos com aquele textinho fofo, mas que me pareceu mais sincero na estreia... e onde hoje, ao final, d. Maria exclamou “Bem vindos todos os senhores” (ou algo assim) para a plateia.
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A sequencia ótima é interrompida pela mega deslocada Marambaia (que além de tudo, não foi uma das maiores interpretações de Bethânia), mas é retomada uma música depois com o pot-pourri de sambas de roda que, com um começo meio “morno”, simplesmente TROUXERAM O VIVO RIO ABAIXO. Absurda a energia dessa hora! Segue-se com Minha Casa, que estava entre minhas músicas “menos preferidas” (rs) do show, mas que hoje d. Maria acertou a mão tão sinistramente que acho que deva ser essa, sem retoques, a versão do DVD. Linda. Mesmo. Duas músicas depois (incrível como Velho Francisco prometia mais ao vivo...), é a hora de Escândalo, que é a minha música preferida, mas que, infelizmente, acho que d. Maria não vai nunca mais executar tão perfeitamente quanto no primeiro dia (tem gravações por aí, quem ainda não ouviu –será que ainda tem alguém?-, ouça, é genial). Salmo é linda, hoje ela deu novo peso, foi ótima! Canções e Momentos apenas OK.
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O bis me recuso a comentar. Vale pela animação, pelo corinho, pelos gritinhos agora liberados (BAHÊA!!!) e só.
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Uma coisa que não pude deixar de reparar (e quando comentei com os meninos, vi que não fui o único): d. Maria parecia estar com algumas dificuldades para respirar. Não só não estendeu as notas mais longas, como em alguns momentos parou para pegar fôlego (por exemplo, em Guacira, que ela parou e encheu ruidosamente os peitos para continuar cantando – o que me lembrou a frase da mãe do nosso digníssimo presidente reversiano: “Maria Bethânia aprendeu a respirar, por que antes ela não respirava, tomava fôlego!”) e em vários colocou a mão sobre o diafragma, como se se esforçasse para a emissão.
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Trocando em miúdos, a apresentação de hoje foi, como o show em si, irregular, alternando momentos somente corretos com os absolutamente fabulosos. “Ah, Matheus, momentos somente corretos? Então será que vale a pena?” Claro, responderia eu, estamos falando de Bethânia, aquilo que é médio em sua obra está há anos-luz do que é produzido por aí. Pano rápido.
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Vídeos:
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Um trechinho do primeiro ato (final de Sangrando até Não Enche):
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Início do segundo ato:
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TEXTO: Matheus Rodrigues
FOTOS: Lúcio
VÍDEOS: Ricco
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7 comentários:

Matheus Hist disse...

Adorei essa montagem do post com a reunião do trabalho coletivo de nós, reversianos, deu até vontade de fazer disso algo sistemático, hehe.

Parabéns para nós!

rafael disse...

Matheus, está de parabéns pelo seu texto, sincero e delicado, conseguiu demonstrar suas impressões com clareza, parecia que eu estava lá. abraços

rafael disse...

Matheus, está de parabéns pelo seu texto, sincero e delicado, conseguiu demonstrar suas impressões com clareza, parecia que eu estava lá. abraços

Waldeck Filho disse...

Genial o texto do Matheus. A clareza com que expões sua percepção, mesmo que particular não deixou de ter sua imparcialidade.
Creio que tenha sido a melhor leitura feita por mim sobre resenha do show.

Ricco Reverso disse...

É néam?!

Ricco Reverso disse...

Pois, façamos, querido Matheus!!!
A Re(verso) serve pra isso mesmo. Com toda a sua pessoal imparcialidade, trará um material beeeem vasto pra nós.
Queria trazer algo de D.. Beebee!

Unknown disse...

Lindo texto Matheus!!!