quarta-feira, 29 de julho de 2009

Show "Comigo me Desavim" (1968)



Bethânia: nova mulher, um novo show


"Não existe só a cantora do Carcará, existe também a pessoa Maria Bethânia" – esta é a frase inicial do show e é a própria cantora quem a pronuncia.

      Comigo me Desavim – título do show de Maria Bethânia que estréia hoje no teatro Ruth Escobar, traz de volta a cantora ausente de São Paulo há dois anos, quando aqui fez o Tempo de Guerra, em 1966.

      Residindo atualmente no Rio, Maria Bethânia se apresentará ao público paulistano em uma temporada de apenas 20 dias, findos os quais vai se preparar para uma viagem a Paris, onde inaugurará o teatro de Pierre Barouh, a convite do próprio artista.

      A Maria Bethânia que o público de São Paulo verá é uma nova mulher, mais tranqüila, menos agressiva e com a mesma timidez no olhar que tem seu irmão Caetano Veloso.

      Nos ensaios, vestida de calça comprida verde, colete de couro cru por cima de uma blusa branca coberta de muitos colares, calçando uma bota de couro preto que ia até as coxas, ela segurou uma rosa vermelha seca com muito cuidado e diante da curiosidade explicou: "Ganhei de presente".

O show

      Comigo me Desavim é o título de um poema de Sá de Miranda, musicado por Caetano Veloso, especialmente para sua irmã cantar. Além da música-título, Maria Bethânia cantará no espetáculo mais 17 músicas. Entre os autores, há os nomes consagrados de Vinícius de Moraes, Pixinguinha, Tom Jobim, Veloso e outros.

      Bethânia também faz uma homenagem às cantoras que marcaram época em nosso mundo artístico: Linda e Dircinha Batista, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Nora Ney, Araci de Almeida e Isaura Garcia.

      Ela diz que fez o show porque andava na "fossa" e brigada consigo mesma.

      "Além do mais, quero demonstrar que não estou, como dizem, brigada com São Paulo. Amo esta terra, foi aqui que comecei minha carreira, justamente com a inauguração do Teatro Ruth Escobar, em 1965, com o show Opinião.

      Comigo me Desavim dura duas horas, tem direção de Fauzi Arap e nele tomam parte, acompanhando a cantora, o Terra Trio e Macalé ao violão. Este mesmo espetáculo esteve em cartaz durante três meses e meio no Rio de Janeiro, "com grande sucesso".


Durante a primeira semana, ele estará em cartaz no próprio Ruth Escobar e o restante da temporada (20 dias) no "Galpão", sobre o "Ruth Escobar".

      Durante o espetáculo, Maria Bethânia estará vestindo uma calça preta estilo toureiro, uma blusa preta, muitos colares vermelhos, sapatos pretos e cabelos (estão bastante compridos) soltos.

      O traje foi feito especialmente para ela pela Casa Vogue.

A experiência

      Apesar de muito jovem, com apenas 22 anos, Maria Bethânia é uma mulher muito séria e dedicada, deixa transparecer a preocupação profissional que a domina.

      "Fiz muita coisa no Rio, nos últimos tempos. Trabalhei na boate Cangaceiro, onde cantei músicas do Vinícius e Jobim, fiz depois Pois é, Comigo me Dasavim, Yes, nós temos Bethânia no Teatro de Bolso e um recital na boate "Barroco" cuja gravação ao vivo acabou sendo meu último LP. A propósito, quero gravar este meu show de agora em São Paulo, o Comigo me Desavim.

Depois de ensaiar um pouco, ela volta ao praticável do teatro, diz com um largo sorriso:

      "Nossa melhor cantora? Claro que é a Maisa! Admiro muitas outras, mas Maisa é sensacional! Quanto aos homens, gosto muito do Roberto Carlos, João Gilberto, Orlando Silva, Sinatra e Johnny Hollyday. Das cantoras estrangeiras, Nina Simone é divina".

      E os compositores?

"Bem, além do meu irmão Caetano, que sempre foi doido, mais doido do que eu, Noel Rosa, Chico Buarque, Caymmi e o Jobim".

      "Voltando à Maisa, você sabia que ela vai fazer um filme com o Visconti"?

"Pois é menino"..

      Dizendo que o Caetano Veloso "foi sempre maluco e quando menino já se vestia com camisola da gente e saía pela rua" ela informa que cantará no show as seguintes músicas do irmão: Mãe Coragem, Maria, Maria (feita especialmente para ela, juntamente com Capinan), Onde Andarás de Ferreira Gullar, Comigo me Desavim e Taturano, nome do primeiro cangaceiro famoso do Nordeste, o mesmo que levou o célebre Lampião para o cangaço.

"Além disso, canto poemas de Brecht, musicados pelo Fauzi Arap, pelo Terra Trio e por mim. Quanto às musicas do Chico Buarque, ah, isso não conto, canto"

      Indagada sobre o que pensava do Tropicalismo, Bethânia fez cara de espanto, exclamou:

"Cruzes, que é isto"?

Quer saber de uma coisa? Nem o Caetano sabe"!

É assim Maria Bethânia uma nova mulher, descontraída, brincalhona, séria, objetiva.

      É assim muito extrovertida, quando canta a nova Maria Bethânia, mulher que gosta de fazer flores de papel quando não está cantando.

      Antes de voltar ao palco para continuar o ensaio, ela diz:

"O que mais admiro na juventude de hoje é a irreverência. Sou totalmente a favor das idéias do "Poder Jovem" com a ressalva de que os adultos não podem, de maneira alguma serem abolidos. Isso de a juventude a ser a dona da verdade não funciona. Falta-lhes a vivência, a experiência que só os adultos têm".

    Maria Bethânia fica em pé, num pulo, vai para onde estão os moços do Terra Trio e canta como nunca.

      Ainda está segurando a rosa vermelha seca.

Oswaldo Olney Kruse - Folha de S. Paulo, 18/09/1968 

*Abaixo um link para download do programa do espetáculo. Uma raridade que nos foi enviada por Heron, membro de nossa comunidade no Orkut, a quem agradecemos.

DOWNLOAD AQUI

5 comentários:

san.f disse...

PESSOAL, fantástico!

O que me chama atenção na MB é que há mais de 40 anos se referem a ela com os mesmos adjetivos: séria, profissional, carismática, coerente, voluntariosa...

E há todo este tempo ela transita com graça entre a novidade mais desconcertante e o antigo mais inesperado.

Corrobora aquele dito: 'quem é bom já nasce feito'.

Anônimo disse...

Parabens pelo inusitado de suas postagens.
Tá tudo maravilhoso por aqui.

Anônimo disse...

achei muito legal este post.
e também a-m-o nina simone e aquele grave maravilhoso.
aliás são os mais belos graves que conheço: nina, bethânia e simone.
quando nina e bethania cantaram juntas 'pronta pra cantar' pirei legal. pena que a primeira - que tb não era flor que se cheirasse - chegou ao brasil perguntando por uma tal bethânia que não teria providenciado o pagamento de sua participação naquele cd.
deixei por conta do folclore que envolvia a grande diva. nana caymmi, igualmente irreverente e apimentada, nem por isso deixa de ser uma das maiores cantoras do planeta.

Hilário disse...

neste exato momento, 18/09/2009 - há 41 anos, algo me trouxe até aqui. obrigado, bethânia.

Serenata disse...

http://youtu.be/VZsPQULJWEQ
Muito obrigada Re(Verso) por tudooo!