domingo, 8 de maio de 2011

"Bethânia e as Palavras" em Curitiba - 3 de maio de 2011

PALAVRA É O DOM
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Lá para o meio do show, quando ela começava a dizer que “o Recôncavo Baiano reza a seu modo”, uma voz gritou: “continua doce e bárbara”. E o sorriso iluminado na ribalta concordou com a definição tão dela. A doce Maria de Oxum, a bárbara Bethânia de Iansã, adentrou inteira o palco do Pequeno Auditório do Teatro Positivo. O público curitibano, costumeiramente tão semelhante ao seu rigoroso inverno,
derretia-se pelo calor de uma árvore em chamas. Estávamos lá - até os mais inconstantes devotos, até os que foram conferir o medalhão da MPB, até os que a viam pela primeira vez, até os que perderam a conta no rosário dos shows, até a senhora que só sabia cantar ‘Meu primeiro amor’, até eu, que poderia dizer cada texto junto dela. Estávamos mudos por dentro (naquele escaninho onde o silêncio rara); estávamos abraçando Bethânia; estávamos saudando Fernando, Clarice, Guimarães, Manuel, Ascenso; estávamos bendizendo a própria língua canto-falada.


Não é fácil contar a história afetiva do Brasil em uma hora e pouco. Mais difícil ainda é fazer cada espectador sentir a sua própria história desvelada em cena. Quase impossível é implodir grossas camadas pétreas de insensibilidade e afagar com o sussurro da voz a dorida ferida da alma. Maria Bethânia e as palavras, as sábias-líricas-ternas palavras, conseguem operar um milagre. Eu chorei, chorei muito; emocionei-me como em poucos espetáculos de teatro e música; senti-me tocado como quando a minha própria voz dita-me poemas. (E como é que a gente reconhece o timbre que nos inspira?). Compreendi como nunca o valor da minha mãezinha preta, do meu marinheiro pai lusitano, dos homens (meus irmãos na Terra), do meu avô, pai grande, devoto de Tupã. Afaguei, com ela, os cabelos de minha pátria; rocei nossa língua na língua nossa de cada dia; viajei de trem para o nordeste; desaguei minhas mágoas nas veias de São Francisco, o rio que jamais vi, mas cujo transir d’águas ouvi no vibrato dela. Eu tenho paixão.
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Uma paixão que fulmina quieta e alegre quando supõe poetas, escritores, sábios tão ancestrais, transpassarem a alma dos brasileiros modernos por meio de uma voz. Bethânia é uma médium que atualiza um tesouro sem-tempo. A poesia é jóia impregnada de eternidade – e mesmo assim a esquecemos.


Bethânia tem ensinado o Brasil a ler, e não há missão mais rara, mais cara, mais útil. Como é que eu posso chamá-la cantora? Há tempos ela é intérprete. Mas intérprete é nome que caiba na largueza de quem ensina? E como a gente chama mesmo a senhora que intercede por nós junto ao Deus - que é verbo? Maria.


“Maria, o teu nome principia na palma da minha mão, e cabe bem direitinho dentro do meu coração”. Nossa Senhora! Ela cantou essa em Curitiba, logo depois que foi conclamada doce bárbara, pouco antes de iniciar a ladainha que sincopamos nas palmas. No roteiro da capital paranaense, ela incluiu a saudação ao vento de Paulo Leminski, nosso poeta mais célebre. Cantou, com os sagrados tambores, a introdução de “Zumbi” (Jorge Bem Jor). Entoou a antiga canção “Conversação entre João e Maria” (Sueli Costa / Tite Lemos), de “A Cena Muda” (1974). E – momento dos mais áureos – emendou o texto “Depois de uma tarde”, de Clarice, com “Todo Sentimento” (Cristovão Bastos e Chico Buarque) para fechar o espetáculo. O bis, arrepiante, foi composto pela canção “Mensagem” (Cícero Nunes e Aldo Cabral) e pelo poema “Todas as cartas de amor são ridículas” (Fernando Pessoa), clássico de “Imitação da Vida”. O bis, cantado e recitado em coro pelos admiradores mais aficionados de Bethânia demonstra o alcance de seu trabalho. Ficou fora do repertório original “Amor de Índio” (Beto Guedes), “Iaiá Massemba” (Roberto Mendes e Capinam), “Rosa Vermelha” (Domínio Público) e “Berimbau” (Manuel Bandeira). Show que amadurece na estrada, que ganha coesão e transborda coerência.
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Público solto, soltinho. Declarações de amor, propostas de casamento, cenas de ciúmes. Carinhos que bolem por dentro diante da beleza e escapam. “É bom ouvir”, ela arrematou. Mas uma infeliz senhora ultrapassou a margem da delicadeza: “Lê na minha cama”. Bethânia, vislumbrando a rés do patamar da canção, não deixou barato: “Meninos, estou lendo poemas. Eu gosto dos venenos mais lentos...” e emendou o texto de Bruna Lombardi. Foi ovacionada pelos demais, talvez até mesmo pela tal indelicada, miúda nos seus sentimentos revirados.

Imensa! Maricotinha estava feliz, etérea, compenetrada, afinada com seu mais refinado ser de atriz. Concluía mais uma temporada de uma leitura que começou tão despretensiosa e ganhou a dimensão de um dos seus líricos espetáculos. Certamente um dos que mais conversou com a minha alma e entregou-lhe a chave. “A loucura é o sol que não deixa o juízo apodrecer”, eis a resposta que ouvi, mais uma vez, da bacante de nome Maria.
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Texto e fotos do Jornalista Renato Forin Jr.Obrigadão, Renato!!!!!!
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14 comentários:

Anônimo disse...

BELÌSSIMO texto!!! Devia ser publicado em TODOS os jornais,sites outdoors do país.
Vi o espetáculo na sua esréia no Rio. E é isso mesmo o que ele nos causa,sem tirar nem pôr.
Salve Rainha!!!!

Luís Henrique disse...

Maria bethânia tem feito um trabalho belíssimo no âmbito da valorização da cultura popular.

Cantoras como essa é que deveriam estar no grande meio, ser acessada pela grande população.Mas, infelizmente, nesse Brasil, onde o senso crítico é ludibriado como uma jóia, ainda é difícil mostrar a população o seu próprio valor, sua própria personalidade.

Nós brasileiros temos que aprender a valorizar a cultura de nosso povo, não deixando o sistema capitalista estrangular a nossa arte, corromper nossos ensinamentos e procriar a nossa falta de escolha.

Hugo de Oliveira disse...

Perfeito.
Bethânia é uma Abelha Rainha.

abraços

Euuu disse...

Muito bom Bethania. Faz um papel excelente para a cultura brasileira. Alem de cantora, otima escritora. Eu gosto. Compositores como vc e Cae sao otimos, merecem reconhecimento.

Euuu disse...

cultura popular. Muito belo. E em Curitiba. Muito bom.

Euuu disse...

ela eh uma querida. como falo com alguns entes catarinas, uma CRIDA. hahaha grande beijo

Anônimo disse...

Bethânia e as palavras tem de virar DVD! Todos os brasileiros deveriam poder assistir a esse espetáculo de extrema delicadeza. Biscoito Fino, por favor, atenda a esse pedido.
Ricardo

Ivan Ribeiro Mello disse...

Grande trabalho Bethânia! Como o seu trabalho vem se intensificando na área de valorizção da cultura popular, venho, também, divulgar o meu blog de poesias! Espero que dê uma olhada, pois tenho grande admiração por sua carreira, grande abraço!

@ivanmello_

http://ivanribeiromello.blogspot.com/

Anônimo disse...

Maria Bethânia é um SER ILUMINADO!e as palavras tem o poder de dar felicidade, porquê para tão poucos. Os Shows poderiam ser mais acessíveis para que todos os brasileiros assistissem pelo menos uma vez na vida aum de seus espetáculos, por favor, atenda a esse pedido.

Regina Daros
www.pousadajoaodebarro.blogspot.com

Anônimo disse...

Maravilhooosa! O texto foi lindo! De causar arrepio e bater mais forte o coração.
Cadê o DVD?
Beijão

Mary Derosso

prof@ Roseli disse...

Certamente que Bethânia tem nos comovido com seu canto desde sempre! Bethânia e as Palavras é tão lindo quanto comovente. É impossível não ter a sensação de ter vivido algo grandioso...como se a todas as divindades ...resolvessem através da voz de Bethânia se aproximar dos humanos ... mostrar nossas misérias ... nossas capacidades de amar e de transformar! Que Bethânia nos guie pelo caminho da música e da poesia ... Sempre!!!

Vagno disse...

Já vi vários espetáculos de Bethânia. E todas as vezes que à vejo, fico comovido e feliz por ela existir em nossa terra. Muitas vezes me pego pensando, "Peço à Deus que Bethânia viva muitos anos, que pra mim ela já se eternizou. Durmo com Bethania (ouvindo) e acordo com ela também. Aplausos para o jornalista Renato Forin Jr., pelo lindo texto. Faço dele minhas palavras. Mais um belo trabalho de Bethânia. Te amo, Maria. Grato por vc existir.

Vagno Di Paula
Acreano e colunista social
Contatos: vagnodipaula@gmail.com

Vagno disse...

Já vi vários espetáculos de Bethânia. E todas as vezes que à vejo, fico comovido e feliz por ela existir em nossa terra. Muitas vezes me pego pensando, "Peço à Deus que Bethânia viva muitos anos, que pra mim ela já se eternizou. Durmo com Bethania (ouvindo) e acordo com ela também. Aplausos para o jornalista Renato Forin Jr., pelo lindo texto. Faço dele minhas palavras. Infelizmente não pude ver "Bethania e as Palavras". Merecemos esse grande e belo trabalhpo em DVD. Te amo, Maria. Grato por vc existir.

Vagno Di Paula
Acreano e colunista social
Contatos: vagnodipaula@gmail.com

Anônimo disse...

A grande Bethãnia foi uma das pioneiras a fazer temporadas populares (dez reais),ao menos aqui no Rio,desde de Imitação da Vida(temporada no teatro Carlos Gomes,durante um mês inteiro.Depois
foi no Canecâo, Vivo Rio.
Já estou com saudades de vê-la no palco,que é o seu elemento.